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A defesa da Venezuela e a luta pelo socialismo na América Latina

Publicado orginalmente em 10 de maio de 2019

No dia 4 de maio, o Comitê Internacional da Quarta Internacional realizou o Comício Online Internacional de 1º de Maio, o sextoevento anual do Dia Internacional do Trabalhador realizado pelo CIQI, o movimento trotskista mundial.O comício ouviu discursos sobre diferentes aspectos da crise mundial do capitalismo e as lutas da classe trabalhadora internacional de 12 membros líderes do partido mundial e suas seções e organizações simpatizantes em todo o mundo.

A seguir, estamos publicando a declaração do editor de América Latina do WSWS,Bill Van Auken.No dia 6 de maio, o WSWS publicou o discurso de abertura do comício, realizado por David North, presidente do conselho editorial internacional do WSWS e presidente nacional do Partido Socialista pela Igualdade (EUA).

Neste 1˚ de maio de 2019, o ressurgimento da luta de classes e o crescente apoio ao socialismo na classe trabalhadora estão se desenvolvendo em todo o mundo, ao mesmo tempo que as elites capitalistas se voltam à guerra e à reação fascista.

Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que na América Latina, onde cerca de 650 milhões de pessoas enfrentam a mais profunda desigualdade social do planeta.

Os governos da região, que são controlados tanto pela extrema direita, quanto pelos que ainda posam como nacionalistas de “esquerda” – o que sobrou da chamada “maré rosa” –, têm colocado todo o peso da crise econômica e social do subcontinente sobre a classe trabalhadora.

A luta contra a guerra e a reação é da maior urgência por causa da crescente ameaça de uma intervenção militar direta dos EUA na Venezuela.

A administração Trump escalou agressivamente sua operação de mudança de regime com a tentativa de golpe frustrada de Juan Guaidó, o político direitista financiado pelos EUA, que serve como fantoche da intervenção estadunidense.

O chamado de Guaidó para que os militares se levantassem e derrubassem o governo Maduro acabou sendo um completo fracasso. Ele não causou um racha nas forças armadas nem provocou qualquer apoio popular significativo. Mesmo assim, as ameaças de provocações novas e ainda mais sangrentas, bem como um ataque militar direto dos EUA, apenas se fortalecem a cada dia.

Ontem, o chefe do Comando Sul dos EUA, o almirante Craig Faller, viajou a Washington para explicar para autoridades do alto escalão do governo quais são as opções militares dos EUA na Venezuela. Há relatos de que pelo menos um grupo de batalha de porta-aviões está sendo enviado para as águas da costa venezuelana.

O país está sendo sufocado com a imposição de sanções econômicas que equivalem a uma guerra. De acordo com uma estimativa recente, o bloqueio da Venezuela pode ter causado até 40.000 mortes por causa da interrupção do fornecimento de alimentos e remédios. Além disso, em fevereiro, Washington tentou utilizar caminhões, com uma quantidade minúscula de comida, como uma espécie de cavalo de Tróia moderno para provocar um confronto militar na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia.

Em sua ousadia e criminalidade, o ataque à Venezuela relembra os capítulos mais sombrios da longa história de agressão militar, exploração e repressão policial do imperialismo estadunidense na América Latina.

Bolton e outros na administração Trump se gabaram de estarem “tirando o pó” da Doutrina Monroe. Esse princípio de quase dois séculos de existência da política externa dos EUA foi originalmente criado contra as tentativas reacionárias das potências imperialistas da Europa de recolonizar o continente Americano. Entretanto, com a ascensão do imperialismo estadunidense, a Doutrina Monroe tornou-se uma justificativa geral de intervenções e ocupações militares com o objetivo de defender os interesses dos bancos e corporações dos EUA.

Sob a bandeira suja da Doutrina Monroe, Washington realizou nada menos do que 50 intervenções militares diretas no continente.

Hoje, essa doutrina foi ressuscitada de uma forma ainda mais sinistra. Ela tem sido invocada por Washington para culpar a Rússia, China e Cuba por atrapalharem a operação de mudança de regime na Venezuela ao fornecerem empréstimos e ajuda ao país. Autoridades do alto escalão estadunidense exigiram que esses países “saiam da Venezuela”, impondo duras novas sanções contra Cuba e até mesmo ameaçando uma ação militar contra a Rússia. Um deputado republicano da Flórida chegou a sugerir que Moscou havia instalado armas nucleares na Venezuela, comparando essa situação com a crise dos mísseis de Cuba de 1962.

Autoridades estadunidenses não tentaram esconder que seu objetivo é fazer com que os conglomerados de energia dos EUA controlem diretamente as reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do planeta, e revertam a significativa influência econômica das chamadas “grandes potências” rivais de Washington – China e Rússia – no país e na região. Isso ameaça transformar a América Latina em um campo de batalha em uma terceira guerra mundial nuclear.

Ao mesmo tempo, o renascimento da desacreditada doutrina, difamada em toda a América Latina, é a resposta do imperialismo estadunidense em declínio, que se defronta com o fato de que, mesmo em seu “próprio quintal”, foi substituído pela China como principal fonte de investimento estrangeiro.

A pretensão esfarrapada avançada como uma cobertura para este exercício criminoso e de pilhagem é que Washington está apoiando a “democracia” na Venezuela, uma afirmação que é repetida por uma obediente mídia corporativa, bem como pelos supostos opositores democratas de Trump, de Biden a Sanders, que se alinharam em apoio à operação de mudança de regime.

Isso não é uma novidade. Há 55 anos, quando o exército brasileiro derrubou o presidente eleito do Brasil, João Goulart, o New York Times escreveu:

“Se um único motivo pudesse ser detectado no golpe, que foi planejado em conjunto, por um grupo de civis, governadores de estado – todos, aliás, eleitos – e de militares, era sua preocupação em manter a democracia no Brasil”.

A estrutura criada com o golpe de 1964 foi a de uma ditadura militar, que governou o país com mão de ferro nas duas décadas seguintes e ajudou a espalhar regimes militares fascistas que assassinaram, torturaram e aprisionaram centenas de milhares de trabalhadores e jovens em todo o continente.

Quem pode acreditar que a administração Trump está preocupada com a “democracia” e a “liberdade” dos trabalhadores na América Latina? Ela revela sua posição em relação a esses trabalhadores todos os dias na fronteira sul dos EUA, perseguindo implacavelmente refugiados que fogem das condições criadas pelas guerras dos Estados Unidos e das ditaduras apoiadas por Washington na América Central. Esses trabalhadores têm sido perseguidos por agentes de fronteira de mentalidade fascista, jogados em campos de concentração e tiveram seus filhos arrancados de seus braços.

Existe, é claro, um componente doméstico para os EUA hastearem a manchada bandeira da Doutrina Monroe. Esse movimento está inseparavelmente ligado à tentativa da administração Trump de centrar sua reeleição em 2020 em uma campanha fascista contra o “socialismo”, que ela tenta culpar pela privação social na Venezuela, mas que foi criada pela crise capitalista mundial, pelas sanções punitivas dos EUA e pelas políticas pró-capitalistas do governo burguês de Maduro.

A luta contra as tentativas da elite dominante dos EUA de promover um movimento fascista contra o crescimento da oposição socialista dentro da classe trabalhadora encontra seu aliado mais imediato na batalha dos trabalhadores latino-americanos contra seus próprios governos de direita, do fascista ex-capitão do exército, Jair Bolsonaro, no Brasil, a Lenin Moreno, que provou sua lealdade ao imperialismo ao abrir as portas da embaixada do Equador em Londres para um esquadrão da polícia britânica, agindo, à mando de Washington, para extraditar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange.

Conforme a onda de greves recente de dezenas de milhares de trabalhadores mexicanos nas indústrias “maquiladoras” em Matamoros demonstrou de forma tão poderosa, a classe trabalhadora, objetivamente unida através do processo de produção comum que atravessa as fronteiras nacionais, encontrará um caminho a seguir apenas através da unificação consciente dos trabalhadores dos Estados Unidos e latino-americanos em uma luta para derrotar seus inimigos comuns – os bancos e corporações transnacionais, o imperialismo estadunidense e as oligarquias nacionais dominantes da região.

Somente essa luta unificada, baseada no programa do internacionalismo socialista, pode derrotar a ameaça de guerra na Venezuela, com suas implicações catastróficas para todo o continente e, de fato, para todo o mundo.

Essa luta deve ser preparada e liderada.

Nós apelamos aos nossos camaradas na América Latina, aqueles que estão participando deste comício online, aqueles que leem o World Socialist Web Site e todos os trabalhadores e jovens que buscam um caminho revolucionário: estudem seriamente o programa e a perspectiva do Comitê Internacional da Quarta Internacional e da longa história de luta travada pelo trotskismo contra o revisionismo na América Latina, e, sobre esses princípios, construam seções do CIQI em todos os países.

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