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A crise do governo grego e o papel da "esquerda"
Por Markus Salzmann
15 de janeiro de 2009
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Este texto apareceu originalmente em inglês no WSWS
em 31 de dezembro de 2008
O governo conservador grego, liderado pelo Primeiro Ministro
Kostas Karamanlis, está sob crescente pressão. Com
os protestos estudantis que se iniciaram no começo de dezembro
- após o assassinato pela polícia de um jovem de
15 anos - milhares de universidades e escolas foram ocupadas em
todo o país. Durante o feriado de Natal, houve novos confrontos
entre os jovens e a polícia.
Torna-se cada vez mais claro que os protestos expressam um
profundo descontentamento com a elite política do país.
O governo do Nova Democracia (ND), dirigido por Karamanlis, não
tem praticamente nenhum apoio da população. A maioria
dos gregos considera os protestos como uma revolta justa contra
uma camarilha corrupta nos negócios e na política,
que enche seus bolsos enormemente e conduz ataques cada vez mais
severos contra a população.
Pela primeira vez, desde as eleições de 2006,
uma estimativa eleitoral votos colocou o líder da oposição,
George Papandreou - do social-democrata Movimento Socialista Pan-helênico
(PASOK) -, na frente de Karamanlis. Já a coligação
de "esquerda", SYRIZA, ultrapassou o Partido Comunista
Grego (KKE) e ocupa agora o terceiro lugar nos índices.
Sob a pressão de protestos constantes, Karamanlis anunciou
a reorganização de seu gabinete. Mas essa tentativa
de apaziguar a raiva pública demitindo alguns bodes expiatórios
não é capaz de resgatá-lo da sina de seu
governo, que tem uma frágil maioria de apenas uma cadeira
na Câmara do Parlamento. Há também uma oposição
crescente à Karamanlis dentro de seu próprio partido.
Sob a crise econômica mundial e a ameaça de demissões
massivas na indústria grega por conta da crise econômica,
existe entre a burguesia Grega um grande temor de que os protestos
estudantis se espalhem e se tornem e fábricas ocupadas
e greves, numa crescente radicalização dos trabalhadores
por todo o país. Diante disso, cresce o chamado por um
"governo forte".
O líder do PASOK, Papandreou, sindicatos, a aliança
de esquerda SYRIZA e seções da mídia, reivindicam
novas eleições. No meio do mês de dezembro,
um dos principais jornais de Atenas rodou a manchete: "Vaga
a ser preenchida: Governo". As alternativas possíveis
ao governo atual incluem uma coligação da Nova Democracia
e até mesmo um "governo de esquerda" composto
por PASOK, SYRIZA e KKE.
Os grupos de "esquerda", por sua vez, fomentam a
ilusão de que não votar em Karamanlis e estabelecer
um novo governo trará uma mudança para a vida da
maioria da população. Entretanto, qualquer análise
mais consistente da conjuntura grega deixa claro que esse não
é o caso.
PASOK
As condições catastróficas nas escolas
e universidades - alvo dos protestos atuais - encontram suas origens
no período do governo do PASOK. Este dominou a política
grega desde o fim do governo militar, em 1974. Dirigiu o governo
de 1981 à 1989 e de 1993 à 2004 e exerceu uma influência
poderosa nos sindicatos do país. A Central Sindical dos
Trabalhadores Gregos, a GSEE, acima de todas, possui uma longa
história de estreitos laços com o PASOK.
Durante os anos 1980, o PASOK assumiu políticas nacionalistas,
com uma retórica anti-americana e anti-européia.
Executou um número de reformas sociais limitadas, somente
para destruí-las na década seguinte. O governo liderado
por Konstantin Simitis, em 1996, começou um programa de
reformas radicais, destruindo e privatizando em larga escala setores
inteiros do serviço público. Esta foi, em grande
parte, a tradição política herdada por Karamanlis
e levada adiante quando seu partido foi eleito em 2004.
O PASOK também se responsabilizou por uma atividade
claramente de direita em relação a política
estrangeira. Declarou total apoio à OTAN e à União
Européia. Em 1999, o governo PASOK apoiou a guerra contra
a Iuguslávia, comandada pela OTAN-EUA, enquanto apoiava
incondicionalmente "a luta anti-terror" da União
Européia. Tais medidas enfrentaram uma crescente oposição
popular e, em 2000, o PASOK teve uma pequena margem de vitória
sobre a ND.
Quando George Papandreou assumiu a presidência do partido
para as eleições de 2004, o PASOK estava tão
desacreditado que nem mesmo uma campanha de eleição
populista e promessas de reformas sociais foram suficientes. Karamanlis
e a Nova Democracia venceram a eleição.
Na última campanha eleitoral, em 2007, Papandreou apresentou-se
como uma alternativa de esquerda em relação a Karamanlis.
Prometeu lutar contra a corrupção e liberar dinheiro
para reformar as pensões de baixo valor e os sistemas de
saúde do país - o que tambem não teve efeito.
A população grega já havia passado por uma
série de amargas experiências com o PASOK. Nos seus
20 anos de poder, uma ampla rede de nepotismo e corrupção
se desenvolveu pelo país.
Hoje, a luta interna ao PASOK só é ultrapassada
pela crise aguda do ND. Na seqüência da última
eleição, o líder da PASOK, Papandreou, teve
dificuldade em manter seu posto de presidente. O partido perdeu
qualquer base de amplo apoio popular e ameaça ser dilacerado
por facções opostas. De acordo com índices
atuais, 86% da população grega rejeita tanto os
partidos conservadores, quantos os ditos "socialistas".
O Partido Comunista Grego (KKE)
O Partido Comunista é o mais velho partido da política
grega. Reagiu aos protestos estudantis com uma clara inclinação
à direita, colocando a manutenção da ordem
pública no cerne de suas preocupações. Condenou
os manifestantes como "perpetuadores conscientes da violência"
e alertou contra a "justiça feita pela juventude".
Nas universidades, as organizações estudantis
associadas ao KKE tentaram manter os estudantes sob controle.
Nas manifestações de massa, o KKE tem repetidamente
tentado organizar seus próprios protestos, buscando dividir
o movimento e acabar com a frente de oposição. Além
disso, é o único partido de oposição
que rejeitou a exigência de novas eleições,
dando mais força ao governo conservador.
Tal política não é nova para o KKE. No
decorrer da queda da União Soviética, o partido
iniciou uma aliança de partidos esquerdistas, incluindo
os chamados euro-comunistas, que anteriormente haviam rompido
com o Partido Comunista. Essa aliança, a Coligação
da Esquerda e as Forças Progressistas (1989), ganharam
13% dos votos e, por um período curto de tempo, entraram
numa coligação governamental com a ND. Mesmo naquela
época, tentou sustentar o governo conservador, apesar do
fato deste ter se envolvido em escândalos de corrupção.
O KKE manteve um forte vínculo com Moscou até
o fim dos anos 80. No decorrer da queda da União Soviética,
rompeu com Moscou. Após a saída de diferentes facções,
o partido ficou nas mãos do núcleo central stanilista,
apesar de ainda estar sujeitos a conflitos internos.
O KKE, assim, perdeu rapidamente o apoio da população,
particularmente entre a juventude. A organização
conta com seu aparato partidário, o primeiro a ser construído
em cooperação com a ex-União Soviética.
No período do pós-guerra - e com apoio dos fundos
vindos de Moscou - o KKE foi capaz de adquirir um pequeno império,
incluindo uma gráfica, duas estações de rádio,
várias indústrias e empresas comerciais, assim como
empresas de construção e hotéis.
SYRIZA
A coligação de "esquerda" SYRIZA é
a que mais lucra com a crise política atual. Adaptou aos
protestos declarações de apoio que soam radicais.
A SYRIZA e suas organizações internas têm
feito parte de inúmeras manifestações e têm
chamado por medidas para lutar contra a crise política
e social do país.
Entretanto, por trás de sua retórica, a SYRIZA
assume claramente uma política reformista. A aliança
tenta dirigir a crescente radicalização de amplas
camadas da população para vias inofensivas à
classe dominante. Ela, em nenhum sentido, representa uma alternativa
verdadeira ao PASOK e ao KKE.
Os líderes da SYRIZA têm declarado seu apoio aos
manifestantes em comentários na mídia, ao mesmo
tempo em que tentam demonstrar lealdade aos órgãos
do Estado. Os dirigentes do partido aceitaram um convite de Karamanlis
para conversar, destinado a discutir soluções para
a última crise política. Da mesma forma, o líder
da fração parlamentar da SYRIZA, Alekos Alavanos,
manteve conversas com o alto escalão da polícia
grega. Recentemente, exigiu uma reforma democrática da
força policial ao lado de medidas para geração
de mais empregos e melhoria nas leis trabalhistas do país.
A exigência de uma reforma policial está diretamente
ligada ao chamado para estabilização do poder do
Estado.
Outro líder da SYRIZA, Alexis Tsipras, também
fez exigências vazias ao presidente, reivindicando melhores
condições à juventude. Como nenhum outro,
entretanto, o presidente Papoulias faz parte de um sistema corrupto
que prevalece no país. Em sua função anterior
(ministro dos negócios estrangeiros), Papoulias esteve
envolvido numa série de atividades suspeitas e tem contato
com as mais poderosas dinastias do país. Ele tem apoio
tanto do PASOK quanto da ND.
Alavanos e Tsipira são do tipo que determinam as políticas
do SYRIZA. Alavanos é um economista originado do núcleo
central stalinista do Partido Comunista. Após a queda da
URRS, entrou na organização Synaspismos, corrente
interna ao SYRIZA. Alavanos vem de um setor da burguesia e possui
várias propriedades na ilha de Tenos.
Depois de ter ocupado o cargo de presidente do SYRIZA, foi
substituído por Fotis Kouvalis - que começou sua
carreira na luta contra a ditadura militar do país (de
1967 a 1974) - e, depois, por Tsipras, que possui apenas 33 anos.
Kouvalis é um antigo dirigente de uma facção
que emergiu de um racha do KKE. Foi o secretário-geral
de sua organização sucessora, a EAR, que depois
de determinado tempo entrou no Synaspismos. Kouvalis tem sido
membro do parlamento quase continuamente desde 1989, ano em que,
inclusive, alcançou o posto de ministro da justiça.
Politicamente, trabalha para estabelecer uma coligação
ampla de esquerda entre o KKE e o PASOK, tanto no nível
parlamentar quanto governamental.
Kouvalis foi susbstituído na presidência do Sysnaspismos
pelo líder de sua organização de juventude,
Tsipras. Este tem declarado sua preferência por "movimentos
extra-parlamentares". Nas recentes eleições
para prefeito de Atenas, Tsipras recebeu mais de 10% dos votos.
A eleição de Tsipras para a presidência
do Sysnaspismo reflete o temor de que o SYRIZA desacredite a sí
próprio por contas das excessívas alianças
feitas publicamente com o PASOK. Entretanto, na medida em que
a crise se intensifica, a maioria dos partidos componentes do
SYRIZA tem deixado clara a intenção de cooperar
com os principais partidos políticos do país.
Na maioria dos acontecimentos, as diferenças políticas
entre esses partidos "de esquerda" são meramente
táticas. Em vários casos, a "esquerda radical"
e o PASOK têm estabelecido estreitas alianças.
Fundamentalmente, a política do SYRIZA assemelha-se
muito à política reformista do PASOK da décade
de 1980 - a luta contra as privatizações, pelo aumento
dos gastos públicos e pelo desenvolvimento de uma rede
se seguro social, combinados com uma política exterior
baseada na oposição aos EUA e à UE.
Numa entrevista ao World Socialist Web Site, o porta-voz
do SYRIZA, Andreas Karitzis, reconheceu abertamente: "As
reformas sociais conduzem a sociedade ao caminho certo... Através
de nacionalizações, conseguiremos limitar o poder
do Grande Negócio". Nesse sentido, Karitzis apontou
o governo burgues nacionalista de Hugo Chavez na Venezuela como
um modelo para a Grécia.
Nas atuais condições, a SYRIZA tem mantido suas
portas abertas a todo tipo de cooperação com o PASOK.
Nenhuma das principais organizações ditas de
"esquerda" existentes na Grécia têm algo
a oferecer à população na atual crise. Pelo
contrário, esses partidos têm feito tudo o que podem
para defender a ordem existente.
[traduzido por movimentonn.org]
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